Memória da minha infância

12/dez/2008 · 22 conversas

Tem coisas que ficam na memória e, na primeira oportunidade, a gente se lembra. Foi o que aconteceu comigo há alguns dias, em um final de semana. Sai para almoçar e próximo do local onde fui tinha uma feira de pequenos produtores rurais – agricultura familiar. Após o almoço, fui ver o que havia e, chegando lá, comecei a ouvir uma música. Parei, apurei o ouvido e me lembrei.

Tratava-se de uma música de  Folia de Reis, um tipo de manifestação folclórica muito comum na minha infância e adolescência, vivida no interior do Espírito Santo – município de Alegre – um pedacinho todo especial do Brasil. O que eu fiz, ao identificar a música, foi procurar de onde ela vinha. Descobri que um grupo, devidamente paramentado, a estava tocando e representando, pois nela a representação é parte importante, já que envolve todo um simbolismo.

Para quem nunca viu, nunca ouviu ou nunca ouviu falar, aqui vai uma definição de Folia: “Folguedo popular em que um grupo de homens, carregando uma bandeira ou estandarte, podem esmolas. Levam cavaquinho, violão, acordeon, pandeiro e tantã e cantam à porta das casas, recebendo esmolas e refeiçoes”.

Funciona da seguinte maneira: Durante 12 dias, do Natal até 06 de janeiro, o chefe dos foliões pode bater à porta de qualquer pessoa a qualquer momento, de manhãzinha ou em outra hora. Ele será seguido de palhaço ou palhaços e usará todos os instrumentos para fazer o máximo de barulho. Pedirá, então, licença para entrar em casa, tomar café, lanchar e recolher o dinheiro separado para a Folia. Vai, ainda, oferecer uma bandeira enfeitada de fitas enquanto, do lado de fora, o palhaço dança ao som da música e também recita versos.

A Folia, que pode ser do Divino, no caso do nascimento de Cristo, ou dos Reis, em homenagem aos Reis Magos, lembra a viagem que os reis magos fizeram a Belém para encontrar o Menino Jesus. Os palhaços, vestidos a caráter e coberto de máscaras, representam os soldados de Herodes. A bandeira, que os foliões dizem abençoada funciona como uma abertura e protege das más influências.

Na minha infância e juventude a Folia passou várias vezes por nossa casa. Na verdade, quando chegava o final do ano todos nós – e nossos conhecidos e vizinhos, também – ficávamos esperando o seu aparecimento. Era sempre o mesmo grupo, que mantinha a tradição. E uma característica é que, nos 12 dias de apresentação, eles se transformavam em caminheiros, indo de um para outro local. E como era a zona rural, com casas dispersas, percorriam um longo caminho.

Normalmente, em cada casa que chegavam, recebiam café e algum tipo de alimentação, repartida com todos. No final, feita a apresentação, recebiam uma contribuição e, para agradecê-la, saiam cantando uma de suas canções. Um dado curioso que me lembro é que o palhaço – pelo menos nas apresentações feitas à porta da minha casa – nunca tirava a máscara. Era, de certa forma, um jeito de ficar incógnito.

Ao me deparar com a Folia, minha menória auditiva e visual foi avivada, mas para este artigo andei dando uma lida na internet e em vários sítios que falam deste tipo de manifestação, que tem origem portugueza. Em um deles, há o comentário de que os participantes da Folia se comprometem a fazerem parte dela, apresentando-se durante sete anos consecutivos.

Outro dado curioso é que a arrecadação feita pelos foliões – que é destinada à Folia – não tem espírito religioso, pois não se transforma em contribuição para a Igreja, no caso a Católica. No final da caminhada, encerrado o período de Folia, eles se reúnem, vêm o que arrecadaram e fazem uma festa. Nela, misturam as devoções – como ladainhas – com uma espécie de confraternização, gastando nela o que foi arrecadado.

No Espírito Santo onde esta manifestação cultural era e é comum, anualmente, no município de Muqui, no Sul do Estado, há uma festa envolvendo a apresentação de várias Folias, o que transforma a cidade em um só colorido. Mas não são só os capixabas que a praticam. Ela se repete nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. E de um para o outro há variações na forma de apresentação e no tempo de duração da Folia.

Minha lembrança e a apresentação da Folia em um sábado, veio a calhar. E me deu assunto para falar de uma coisa que é típica do Brasil e, ao mesmo tempo, enquadrar o artigo na blogagem coletiva Coisas do Brasil II, promovida pela Andréa Motta, do Leio o Mundo Assim. É uma ótima oportunidade para que todos nós conheçamos um pouco mais deste imenso e belo país e vejamos aspectos que, a não ser através da lembrança de blogueiros, não teríamos a oportunidade de conhecer.

A Folia, como a maioria das manifestações folclóricas, já não tem o mesmo alcance de quando eu era criança. Mesmo assim, abnegados a mantém viva, repassando a tradição para filhos e, destes, para seus filhos. E ela é uma marca do folclore capixaba, pouco conhecido inclusive pelos que são nascidos no Espírito Santo e aqui vivem. Se a blogagem contribuir para que ela seja mais conhecida, terá valido a pena.

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Yvonne (18 comments.) 12/dez/2008 às 3:18 pm

Lino, foi ótimo ler sobre essa festa que eu já conhecia de nome, mas não sabia maiores detalhes. É uma pena que o folclore está acabando.
Beijocas

Último post de Yvonne: AUSÊNCIA

Carla (314 comments.) 12/dez/2008 às 3:22 pm

Eu já conhecia a Folia de Reis; aqui em Minas muitas cidades cumprem a tradição.
Tudo o que faz parte da nossa cultura e do nosso folclore deve ser preservado, com certeza.
Bjo e otimo findi.

Andréa Motta (1 comments.) 12/dez/2008 às 4:48 pm

Lino, muito obrigada por nos contar sobre a Folia de Reis. Esse costume anda perdido aqui no Rio de Janeiro. Em minha família, temos o costume de desmontar a árvore de natal em 6 de janeiro; tradição que minha mãe aprendeu com meu avô.

Muitíssimo obrigada por participar da coletiva. Um abraço e ótimo final de semana!

Último post de Andréa Motta: Está chegando a hora

Serena (4 comments.) 12/dez/2008 às 9:44 pm

Lino, muito bom saber um pouquinho mais sobre a Folia de Reis.
Aqui onde moro ainda passa, mas já não atrai muito a atenção de
ninguém, o que é uma pena.
Adorei seu post meu amigo! Um beijão.

Último post de Serena: "BLOGAGEM COLETIVA – COISAS DO BRASIL 2"

Elvira (12 comments.) 13/dez/2008 às 12:48 am

Oi Lino.

Já conhecia algo sobre a Folia de Reis mas muito superficialmente.
Muito legal o seu texto.

Bjs.
Elvira

Último post de Elvira: E viva 2009 !!!

Ronald (40 comments.) 13/dez/2008 às 10:03 am

Mas claro que valeu a pena a divulgação da Folia de Reis, uma festa tradicional que, em vários locais ainda existe, mesmo que com pequenos grupos, como aqui em Foz…

Abraços

Último post de Ronald: COMO UM CORPO ÚNICO…

anunciação (17 comments.) 13/dez/2008 às 7:28 pm

Faz tempo não vejo uma folia de reis.Por aqui acontece mas é lá pelo centro da cidade ou em lugares mais afastados,no interior da ilha.Queria voltar a ver.É muito bonito.

Último post de anunciação: Carola,eu?

Lulu on the sky (352 comments.) 13/dez/2008 às 9:27 pm

Lino,
Convido vc para celebrar comigo 5 anos de aniversário do meu blog.
Aguardo vc para comer um pedaço de bolo e brindar essa data.
Big Beijos

india (11 comments.) 14/dez/2008 às 2:46 am

É sempre bom reavivar essas lembranças. Beijos.

Ivani (1 comments.) 14/dez/2008 às 9:39 am

Olá!
Também participei da blogagem coletiva. Estou visitando os demais participantes, isso tem sido uma maneira deliciosa de conhecer melhor esse país e outras pessoas.
Eu tive a oportunidade de ver um grupo de Folia dos REis em uma feira de artesanato. Essas manifestações folclóricas são maravilhosas.
Beijos
Ivani

Luiz Ramos (1 comments.) 14/dez/2008 às 10:54 am

Muito bom.
A Folia de Reis, entre o Natal e o Dia de Reis, indo até o dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, faz parte da minha memória de infância, em Paraíba do Sul, no estado do Rio de Janeiro.
Belo registro de uma tradição que deve ser cultivada.
Luiz Ramos

Keila, a Loba (62 comments.) 14/dez/2008 às 10:08 pm

Adoro as festas e a cultura do povo brasileiro, especialmente da minha Região Nordeste, o qual tenho orgulho. Também temos a Festa de Reis, que é realizada nos 4 primeiros dias de janeiro, e dá a oportunidade das pessoas cantarem nas casas, anunciando a chegada do ano novo. Realizamos o Reisado com os pacientes do Programa Reviver todos os anos, e por ela nos vestimos em grande produção para sensibilizar as pessoas que nos darão donativos em alimentos ou dinheiro, o qual entregamos a uma família carrente quando finda a Festa. Os pacientes adoram, eu também gosto muito, pois conseguimos preservar a tradição e ainda ajudar pessoas com um pouquinho. Não é ótimo?

Fazia tempo que não vinha aqui.

BeijUuvooooooooooooooossssssssssssss da Loba

Mirza 15/dez/2008 às 12:03 am

Lino!
Conheço a Folia de Reis por minha avó, contava seus bons tempos de infância no Maranhão, nunca tive a oportunidade e ver.
Uma semana com muita Paz.
Grandes bjus.

Roseli (1 comments.) 15/dez/2008 às 12:40 pm

Oi Lino, muito bom seu texto sobre essa festa tão bonita e já quase esquecida na maioria dos estados brasileiros. Aqui mesmo em São Paulo, como o folclore anda perdido…Uma pena. Valeu!

Último post de Roseli: Blogagem coletiva "Coisas do meu Brasil II"

Cidão (226 comments.) 15/dez/2008 às 9:13 pm

Belo relato, Lino. Para falar a verdade, nunca presenciei uma folia dessas.
Um abraço!

Último post de Cidão: Garfield e o seu primeiro Natal

Anny (3 comments.) 16/dez/2008 às 3:53 pm

Folias de Reis. Não me lembro delas em Minas mas no interior do estado da Bahia. O que me encantou foi a musiquinha. Não sei te dizer porque.
Só sei que amo o som da gaita de fole e nunca vi uma pessoalmente…

Gostei muito do seu texto. Dizem que manter a memória sempre fresca com as lembranças, ajuda a memória.

Vanessa (7 comments.) 17/dez/2008 às 9:07 pm

Olá, eu tb fiz parte desta coletiva e estou terminando de conferir os posts. Parabéns, bela homenagem á riqueza cultural do Brasil.

Abraço

Último post de Vanessa: blogagem coletiva – consumo consciente

Andréa Motta (2 comments.) 06/jan/2009 às 2:10 pm

Boa tarde, Lino! VOltei hoje para reler seu texto sobre a Folia de Reis. Feliz ano novo!

Lucy Lordelo 09/jan/2009 às 10:53 am

Viajei no tempo!!
Q bom ver um blog tão legal e feito por um capixaba!!
Adorei!!
Vou voltar mais vezes.
Um abraço.

As conversas deste artigo estão encerradas.

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