AO PÉ DA LETRA E CONFUSO

29/ago/2009 · 7 conversas

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Há alguns dias, em um grupo de amigos, conversávamos sobre traduções. O assunto começou por ter um dos integrantes deste grupo havia feito um curso sobre poesia e, nele, se falou muito sobre tradução, sobretudo relacionada à própria poesia, o que é considerado bem difícil, já que não se trata de uma tradução literal, mas, sim, de uma aliteração, que preserve o ritmo e a sonoridade dos poemas traduzidos.

No caso da literatura, não é tanto assim. Mas em muitos casos as traduções são bem ruins, desconhecendo expressões idiomáticas e gírias já consagradas na língua original. Um dos erros que me lembro é traduzir “red tape” para fita vermelha. Em inglês, a expressão quer dizer burocracia. Em alguns casos é uma tradução “on the foot of the letter” (ao pé da letra) e deixa a frase totalmente sem sentido.

E se pegássemos alguns slogans usados pela propaganda e o traduzíssemos, o que aconteceria? Se você não sabe, isso já foi feito. E o resultado, quase sempre, foi péssimo, já que ao traduzir os termos originais para outras línguas não se levou em conta o significado de uma ou mais palavras nela. Então, aconteceu coisas assim:

  • Quando a Parker traduziu para o espanhol o slogan: Não vaza no seu bolso e não o embaraça, o termo embaraça ganhou novo significado, já que quer dizer, a língua de Cervantes, grávida. Com isso, o slogan ficou assim: Não vaza no seu bolso e a deixa grávida.
  • No caso da Electrolux, que é da Escandinávia, ao fazer a tradução de “Nada suga como a Electrolux”, que promovia um aspirador de pó, o verbo sugar (sucks) ganhou todo um novo significado, podendo ser, ao mesmo tempo, algo que não é bom e outra coisa, completamente diferente, relacionado ao sexo oral.
  • A Clariol ao lançar um na Alemanha um novo tipo de mangueira chamou-a de “cabe de névoa”. Só que em alemão o termo para névoa (mist) quer dizer esterco. Então, ficou mangueira de esterco.
  • O caso da Coors, uma produtora de cerveja, foi pior. O seu slogan original era “Turn It Loose”, no sentido de ficar relaxado. Só que em espanhol o sentido é outro e ficou algo assim: Sofre de diarreia.
  • “Como alive with the Pespsi Generation”, que convida à reviver, voltar à vida, quando levado para a China ganhou o sentido de “ressucite seus ancestrais”. Será que a Pepsi vendeu?
  • A Gerber é uma empresa que fabrica alimentos infantis e os vende em várias partes do mundo. No caso da África, ao lançar o produto, ela deixou a imagem de um sorridente bebê no rótulo. Só que, lá, devido ao grande analfabetismo as embalagens trazem nas fotos o que têm dentro.
  • A Colgate lançou na França uma pasta de dente cujo nome era Cue. O mesmo da mais famosa revista pornográfica do país.
  • Voar nu? Pelo menos é o que sugeriu a American Airlines ao lançar uma nova campanha no México, convidando os mexicanos a “Vuela em cuero”, que significa Voar nu e foi uma tradução, ao pé da letra, do que dizia o inglês: Fly in leather.
  • E que tal confundir o papa com batata. Foi o que fez um empresa dos Estados Unidos ao lançar camisetas promocionais da visita do papa. Na tradução para o espanhol foi mantida a palavra “papa”, que quer dizer batata. Então, quem a comprou viu a batata, não o papa.
  • Um outro fiasco de marketing é da General Motors que tentou vender nos países de língua hispânica das Américas um automóvel chamado Nova. Em espanhol a pronuncia é no va, que significa não vai ou não anda.

Em todos os casos, os criativos do marketing não foram tão criativos assim. Desconheceram as peculiaridades culturais e acabaram transformando em fracasso o que tinha sido sucesso na língua original. O que se destaca, neste caso, é que na tradução não se pode pensar ao pé da letra, mas tem de se fazer uma adaptação para a nova língua.

Mesmo que usemos a mesma palavra ela pode ter significados diferentes. E isso ocorre até com o mesmo idioma, como é o caso do português, inclusive o falado o Brasil, que tem especificidades regionais. Quando mudamos para Portugal, por exemplo, é quase preciso uma tradução, já que muitos termos são diferentes e ganham, no país irmão, novos significados.

Enfim, a língua exige cuidado. E que ninguém interprete de outra maneira, pois estou falando do idioma. Sem interpretações com segundas intenções, por favor. (Via CosmoBC)

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{ 7 conversas }

Jens (83 comments.) 29/ago/2009 às 5:04 pm

Pois é Lino, segundo Rubem Fonseca nada temos a temer, exceto as palavras. Especialmente as traduzidas, acrescento.

Um abraço e bom findi.

Luma (225 comments.) 29/ago/2009 às 9:02 pm

Lembro de uma crônica contando a confusão gerada em uma prova de vestibular, quando na redação o tema era falar sobre o lazer. Muitos estudantes fizeram confusão e passaram a falar sobre o raio laser, que era uma novidade. Uma mísera letrinha!

Laser, é acrônimo de “light amplification by stimulated emission of radiation” e não é qualquer brasileiro que sabe disso. A tradução seria “amplificação de luz por emissão estimulada de radiação” e que tal seria um médico lhe sugerir uma cirurgia a “aleer”?

Penso que obras literárias não deveriam ser traduzidas por pessoas com conhecimentos rasos nas línguas envolvidas. Descaracterizar um fundamento, é quase um crime!

Bom fim de semana! Beijus

Carlos Emerson Jr. (14 comments.) 29/ago/2009 às 9:20 pm

Não por acaso tradução é uma profissão com poucos e bons profissionais. Quem é curioso logo é “cuspido” fora pelo mercado editorial.
Tradutor é uma mistura de linguista com escritor. E dos bons.
Um abração e bom final de semana.

Giane (6 comments.) 29/ago/2009 às 9:27 pm

E quem pensaria que você poderia estar falando “língua” em outro sentido, Lino, senão o do nosso “idioma”? Algum tarado por dicionários? ;)

Beijos mil!!!

fernanda (58 comments.) 29/ago/2009 às 9:55 pm

hahahahaha, adorei me reconhecer e ADOREI o final do post, cacai! muita braveza nessa hora. ;-)

Carla (115 comments.) 31/ago/2009 às 10:18 pm

Como fiz Letras, estudei ingles por 15 anos e tenho o diploma de tradutora e intérprete, posso dizer: as armadilhas que existem ao fazer as traduções são muitas!
E olha que já vi cada coisa…
Bjo.

Cidão (226 comments.) 06/set/2009 às 11:37 pm

Nunca esqueço um episódio do Seinfeld quando o Kramer diz Mary Kay’s car, e a fala foi traduzida como o carro da Sula Miranda. Odeio quando adaptam os textos. Eles devem ser mantidos no original. Traduzir é uma arte. Minha carreira de tradutor free-lancer foi para o saco porque não admitia fazer tais adaptações. Arranjava muita briga! :-)

As conversas deste artigo estão encerradas.

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