A (quase) irrelevância dos jornais

16/jan/2009 · 8 conversas

A democracia, como a conhecemos, é fruto de um fenômeno que os jornais ajudaram a construir: a opinião pública. Foram os jornais – a mídia de então – que cuidaram de espalhar informações, formar opiniões, discutir problemas e levar avante o debate sobre o que era melhor para o Estado, para a população. Os formuladores da indenpendência dos Estados Unidos, que também foram os formuladores da nova democracia, contaram e contavam com a mídia, isto é, os jornais para ajudar a forjar uma opinião pública forte e esclarecida, o que, entendiam, iria significar a permanência de um regime cuja base está na participação.

O que os fundadores do Estados Unidos anteviram acabou acontecendo e, com o tempo, os jornais ganharam mais e mais importância. Mas as coisas mudam e não foi diferente para a indústria jornalistica. Primeiro, com o rádio. Depois, com a televisão e, por fim, com a internet. A diversificação fez com que os jornais deixassem de ser o meio de informação para se transforamarem em apenas mais um meio de informação. Olhando historicamente a questão, jornais de praticamente todos os países deram belas contribuições para a informação e formação da opinião pública. Exerceram este papel criticando, apontando caminhos, promovendo debates e apresentando o resultado das ações de quem estava no poder.

Como observa Terry Eagleton, a partir do iluminismo o homem descobriu que só uma coisa é constante: a mudança. Ao longo dos anos o mundo mudou, a população mudou, cresceu, se renovou e os jornais foram, aos poucos, perdendo espaço, ocupado por outras mídias. Ao lado disso, o número de jornais foi diminuindo, com muitos sendo fechados devido à inanição financeira. Aqui no Brasil mesmo tivemos isso, estreitando-se o campo da competição e, com isso, da pluralidade de informação. E ao lado do encolhimento da indústria jornalística tivemos o crescimento dos outros meios, notadamente a partir da Internet e de sua interface gráfica.

Aos poucos, as pessoas foram descobrindo que, primeiro, poderiam ter a informação no seu computador, na sua frente e cada vez mais próxima do acontecimento. E, depois, que a podiam ter de graça, quando antes pagavam por ela ao comprarem o jornal. Foi exatamente a combinação destes fatores que levou ao encolhimento dos jornais, à supressão de muito títulos, a queda na circulação, a queda no volume de anúncios e que, em consequência, levou – principalmente no Brasil – ao enxugamento das redações. Nas empresas, venceu a lógica do menor custo, com a demissão de profissionais melhor remunerados para a contratação de outros, mais jovens e sem experiência, e com salários muito menores. O resultado foi uma queda de qualidade, que resultou em encolhimento de circulação, em menor faturamente e em novos cortes de custos. Criou-se um círculo vicioso.

Ao se ampliar o campo da informação, os blogs também fizeram o seu papel. Estabeleceu-se, no caso da comunicação, o mesmo princípio de nicho da internet. Se você quer informação sobre moda, basta procurar sítios ou blogs que tratam do assunto e que têm muito mais agilidade que os jornais ou a mídia tradicional. A informação está à espera de quem dela precisa e sabe o que quer. E pode chegar no leitor de RSS ou simplesmente no email. Não é mais o Editor do jornal que diz o que cada um deve ler. Agora, é o próprio leitor que determina sua preferência, ampliando o seu poder de escolha e a gama de assuntos à sua disposição. E tudo isso com a impressionante rapidez, que lhe traz a informação quase que em tempo real. É uma concorrência muito desleal, até pelo custo de produção da informação, que é muito menor do que em um veículo impresso.

Por tudo isso – e infelizmente – os jornais, como os conhecíamos até agora, não têm futuro. Eles estão se tornando, a cada dia, mais irrelevantes, abordando temas que deixam de lado a informação e apelam para o entretenimento. Há um caminho a percorrer? Sinceramente, não sei. E pelo que tenho lido, também os especialistas não o sabem. Há, em todo o mundo, tentativas de mudar a forma do jornal, dar-lhe um novo dinamismo, recriá-lo. Vão conseguir? Mais uma vez, não sei. O que sei é que lamento que os jornais, graças a estas combinações de fatores, estejam se tornando quase irrelevantes. Sou, profissionalmente, produto do meio impresso e vejo com tristeza, ao abrir diariamente os jornais que, até por obrigação profissional, acompanho que não retiro deles informações que façam a diferença. Uma pena.

O que constato – e vejo posição idêntica na opinião de quem lê jornal – é que a leitura é feita por hábito. O jornal de hoje é o que aconteceu ontem. E ontem já lemos tudo o que está sendo publicado. E não só isso, mas muito mais. E se já sabemos, que importância terá o jornal? Não sei responder. O que sei é que, apesar da queda dos jornais, o jornalismo nunca foi tão atuante e presente, indo da mídia tradicional à nova. Talvez seja como no velho dito de dar-se os anéis para manter os dedos. Talvez cheguemos à conclusão que o importante, mesmo, é o jornalismo, não o meio que ele utiliza para se expressar e informar.

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{ 8 conversas }

Fábio Max (166 comments.) 16/jan/2009 às 11:47 am

Não acho que os jornais vão acabar, mas eles vão prestar um serviço diferente, o de análise apurada da notícia, coisa que a internet e a TV não fazem, a primeira por ser um meio pouco confiável e a segunda por não ter tempo para tanto.

Na internet, dificilmente se lê alguma coisa em profundidade e, com a fusão dela com a TV, é provável que incorra no mesmo erro de contar os segundos de exibição para diminuir custos. O jornal e a revista, são feitos para quem precisa refletir sobre o assunto.

O problema talvez seja o fato de que jornais e revistas ainda não concluíram isso. Eles montaram plataformas de informação impressa/on-line ao mesmo tempo, uma copiando a outra, as duas autofágicas.

Penso que no futuro, os jornais que sobreviverão, são aqueles que entendem que a notícia em primeira mão será a da internet, e a eles caberão dois nichos de mercado:

a) Aprofundar a notícia;
b) Fazer grandes reportagens especiais que rendem manchetes e repercussão, e que só irão ao ar depois de lidas no meio impresso.

Último post de Fábio Max: IMAGENS DE CURITIBA – 14

Leandro Nascimento (2 comments.) 16/jan/2009 às 7:36 pm

Olá,
ele está perdendo espaço mais não vai dexar de existir
abs

Carlos Emerson Jr; (13 comments.) 16/jan/2009 às 9:57 pm

Os jornais não vão acabar. Acredito que um novo tipo de mídia eletrônica, talvez direcionada para plataformas tipo a do iPhone, vá tomar o seu lugar.
Claro que terá de ser ágil e bastante informativa mas, sem papel a ser impresso, isso não será difícil.
Vamos ver.
Um abração.

Último post de Carlos Emerson Jr;: O fim do mundo

Carla (115 comments.) 17/jan/2009 às 9:14 am

Lino, acredito que os jornais perderam um pouco pra internet, mas não acredito que serão extintos.
Eu, pelo menos, sinto falta do “físico”: no caso dos livros, gosto de e-books, mas não abro mão de pegar um bom livro e degustá-lo.
Bjo e otimo findi.

Lidiane (9 comments.) 17/jan/2009 às 1:09 pm

Não creio na extinção dos jornais, mas que eles perderam grande público, isso é fato.
Um ótimo fds pra vc.

teresa (55 comments.) 18/jan/2009 às 6:29 pm

depende, lino. como sou eu que preparo o clipping do embaixador, leio seis jornais brasileiros por dia, mas tudo pela internet. não seria essa uma continuação natural do jornalismo? abraço.

Zeca (8 comments.) 18/jan/2009 às 6:55 pm

É, Lino!

Ótimo tema para se pensar! Mas acredito na continuação dos jornais, pelo menos de alguns, que se ocuparão mais com o conteúdo esmiuçado das notícias, dadas de forma mais rápida pela internet e pela televisão. E com a criação de outras plataformas de informação, como sobre arte, literatura, esportes, etc..

Abraços.

Yvone (14 comments.) 22/jan/2009 às 9:48 pm

Olá Lino
Cerca de 80 pessoas, entre jornalistas, profissionais de comunicação, empresários, profissionais liberais e estudantes participaram de um evento inédito realizado em Itu pelo portal Itu News, sobre Jornalismo 2.0. Como sou colunista no portal fui convidada a partcipar. Gostei bastante do evento e da forma em que tudo foi abordado.
De tudo que ouvi dentre outras conclusões, percebi que não adianta aprimorar a tecnologia se o jornalista fizer um jornalismo superficial, que é apenas a enumeração dos fatos. Esse novo jornalismo começa pelo próprio jornalista 2.0.
Há uma mudança de perfil, onde o profissional é multimídia, deve ser capaz de passear por todas as mídias. Se por um lado os empregos estão sendo pulverizados, há quem disse por lá que esse é o melhor momento para ser jornalista.
Questões polêmicas como o perigo do controle do Google sobre a humanidade e os direitos autorais foram abordadas.
Não acredito que os jornais vão acabar. A função do jornal e do jornalista mudou por completo e muitas mudanças já estão acontecendo e vc. deve saber com certeza deve conhecer esse assunto muito melhor do que eu.
O vírus da comunicação boca a boca que se tornou digitalizado infectou o sistema de comunicação de massa. E ao que parecem jornalistas e publicitários, ainda não conseguiram lidar com esse novo jeito de funcionar.
Um abraço!

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