A MENTIRA ESTÁ NA CARA

Há algum tempo, lendo uma história sobre Guimarães Rosa, deparei-me com a informação de que ele havia comprado livros em Nova York e na hora de pagar descobriu ter esquecido a carteira no hotel. Pediu, então, ao livreiro que guardasse os livros escolhidos, pois voltaria para pagá-los e levá-los. Para sua surpresa o vendedor lhe disse que podia levar o que pegara e que, depois, voltaria para pagar. Surpreso, Rosa perguntou por que fazia aquilo: Você tem uma cara honesta, respondeu.

Se a honestidade pode ser vista pelo rosto, o que dizer da mentira? Pois não é que, segundo especialistas, ela está estampada na cara de quem a pratica. Sim, está lá, o que não significa que nós, meros mortais, consigamos interpretar ou descobrir que alguém está mentindo. Quem analisa o comportamento humano, no entanto, é capaz de fazer a identificação sem muita dificuldade. Como? Observando a linguagem corporal de quem está mentindo. Afinal, como nos lembram psicólogos, o corpo fala e sua linguagem pode ser lida por quem a entende.

Mas como identificar uma mentira? Existem algumas pistas. Uma delas é o que convencionamos chamar de sorriso amarelo. Na verdade, um meio sorriso ou uma tentativa de sorrir. E isso, dizem os especialistas, é um indicativo da mentira. Outra são os ombros arqueados, que ficam desalinhados, com um mais alto que o outro. Neste caso é o corpo gritando: Mentira!. Um terceiro gesto identificado com este tipo de comportamento é a mão no pescoço. Quem mente tem uma tendência de ficar passando a mão no pescoço. Se alguém o faz seguidamente, demonstrando algum nervosismo, desconfie. Pode estar mentindo.

Observa as mãos de quem fala. Se quem estiver à sua frente estiver com as mãos juntas, é um indicativo de mentira. Este é um gesto recorrente daqueles que mentem. E tem também o olhar para o lado, fugindo do contato visual com a outra pessoa. Aliás, sobre isso, há um episódio da política no Espírito Santo em que um deputado – talvez à frente do seu tempo – afirmava, em relação a outro, que quando este olhava para cima, estava mentindo. E quando olhava para baixo, faltava com a verdade. Aqui, não se trata disso, mas de olhar para o lado ou de um olhar meio enviesado.

Outro indicativo é cobrir a boca enquanto fala. Dizem os especialistas que participaram de uma matéria publicada nesta semana em um jornal local, de Vitória, que este é um gesto revelador. A questão é saber se em todas as vezes que ocorre revela uma mentira. Acho que não e falo com base em uma amiga que tinha o cacoete de toda vez que falava, cobria a boca. E isso, pelo menos no caso dela, não indicava mentira, mas sim uma mania adquirida sem nenhuma razão. Talvez resida neste fato o alerta de que é necessário conhecer a linguagem corporal para identificar o mentiroso.

É o que fazem, por exemplo, psicólogos na hora de testar um candidato ou especialistas que entrevistam quem está pretendendo um emprego. Embora não seja especialista, os jornalistas – pelo menos os da minha época – observavam muito o gestual das pessoas para identificar vacilos que poderiam levar a explorar melhor um assunto. Usei este tipo de observação algumas vezes e, se não cheguei a constatar uma mentira, presenciei insegurança e acabei explorando-a em favor do que fazia. Isso indica, acho eu, que um bom observador pode realmente detectar se alguém está sendo honesto ou não.

O jornal só fala em mentira, não em honestidade. Ninguém disse, como no caso de Guimarães Rosa, se é possível identificá-la também pelo gestual do corpo. Como o interesse maior, na maioria dos casos, é saber se algo é verídico ou não, a pesquisa, com suporte de profissionais da área, caminhou no sentido de mapear os gestos que indicam a um observador que o seu observado está mentindo. Acredito que isso pode, mesmo, ser feito. Mas também acho que todos nós temos, em princípio, um radar que nos permite sentir se algo é verdadeiro ou não. E isso só não ocorre quando temos ótimos mentirosos, aqueles que são capazes de fazer as coisas com total naturalidade. Estes, certamente, são casos perdidos.

Agora, aqui pra nós, se a mentira está mesmo na cara, você tem coragem para mentir? E não venha me dizer que nunca mentiu. Não vou acreditar. Em um ou outro momento, mesmo que seja o que chamamos de mentira piedosa, todos nós já contamos uma, seja como justificação de algo, seja para explicar uma situação ou, mesmo, para fugir de uma saia justa. O que você me diz? Eu confesso que já menti. Mas não vou contar. Afinal, quando o fiz, quis dizer que era verdadeiro e não vou me contradizer.

Compartilhe:

Twitter
Facebook
LinkedIn
Pinterest

6 Responses

Add a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Trump e o retorno ao passado: a volta da história

TRUMP E O RETORNO AO PASSADO

As ações do presidente Donald Trump configuram uma tentativa de volta ao passado, virando o rumo da história. Mas o que a própria história mostra é que o novo sempre supera o velho. Ao manter-se no velho, quem nele fica, olha para trás e perde o futuro.

Leia mais »
O Grande Irmão e o capitalismo de vigilância

A VIGILÂNCIA DIGITAL COMO ROTINA

Hoje, a realidade supera a ficção e o Grande Irmão, do romance 1984, de Orson Wells, foi superado pelo capitalismo de vigilância, que lucra com os dados de quem via, em todos os momentos da vida, através dos aplicativos e da internet.

Leia mais »
O brote, o pão pomerano dos capixabas, servido e à espera de ser consumido.

BROTE, O PÃO POMERANO DOS CAPIXABAS

O brote, o pão que os pomeranos criaram e que se tornou ícone cultura do Espírito Santo, é uma receita simples e fácil de fazer, resulta em um ótimo pão para o café da manhã, o lanche da tarde ou, mesmo, para um sanduíche à noite.

Leia mais »
Um pão básico e rápido feito com fermento natural que ficou ótimo

PÃO BÁSICO RÁPIDO COM FERMENTO NATURAL

O pão de fermentação natural pode ser feito de modo mais rápido e, mesmo assim, ser gostoso e saudável. É o caso desta receita, que acabei de testar. O meio para encurtar o tempo é deixar a massa fermentando durante a noite, estando pronta para ser moldada, fazer a segunda fermentação e ser assada logo na manhã do dia seguinte.

Leia mais »