APARÊNCIA FORA DO PADRÃO

Desde René Descartes e o seu método cartesiano, nós, os humanos, vivemos sempre em busca de estabelecer padres, contendo a diversidade e tornando-a “entendível”. Dizem os que defendem os padres que eles facilitam as coisas. E é verdade, mas isso não abrange todos os campos da vivência humana e menos ainda a forma como as pessoas se mostram ou como agem. A própria humanidade, neste caso, contraria os padres, pois embora sejamos geneticamente praticamente idênticos, somos completamente díspares na aparência, indo do branco mais branco até o negro, mais negro. E em cada segmento, com diferenças, muitas diferenças.

O mundo não é padronizado. O padrão é artificial, pois como nos mostram os furacões, tornados e terremotos a terra não é domável, enquadrável. Se em nível físico é assim, como será¡ em relação à paisagem humana? Curioso que isso não tinha me ocorrido até agora e só me veio a memória por estar andando na rua e, ao observar as pessoas, ter minha atenção chamada para a diferença entre elas, começando pelo modo de vestir. E este contraste ocorreu por estar, há¡ poucos momentos, vendo fotos antigas, com todos os homens de terno e gravata e as mulheres em longos vestidos.

Tínhamos um padrão. Não temos mais. Olhe à sua volta. Veja como as pessoas estão vestidas. Embora a moda queira padronizar, não consegue. O que impera é a diferença. Veja-se o caso das mulheres. Temos alguns com vestidos longos, soltos. Outras, com calças jeans. Terceiras com roupas mais executivas. Algumas, discretas. Outras, coloridas, espalhafatosas. Olhem o cabelo e da mesma forma temos mais diversidade do que padres. Sim, as mulheres seguem a moda, mas isso não determina que sejam iguais, até por terem perfis corporais diferentes.

Em relação aos homens não é muito diferente e você pode ver ao lado de um careca – eles detestam – alguém com o cabelo rastafári. Foi o que aconteceu comigo, que vi caminhar quase que lado a lada, pessoas de terno, alguns em roupas bastantes informais e no meio deles um quase hippie, todo colorido e com um belo cabelo rasta. E ninguém, mas ninguém mesmo, que estava por perto parecia dar a menor importância à diferença. Aqui, mais uma vez, não contamos os tipos físicos, as formas do cabelo, se alguém usa ou não barba e o tipo de roupa que está vestindo.

Você já tinha atentado para isso? Acredito que sim, mas ninguém tinha chamado sua atenção. O curioso é que no meio da diversidade – e ela ocorre em todos os campos – temos padres bem estabelecidos. Ao mesmo tempo em que procuramos enquadrar as pessoas, as coisas, elas nos oferecem as mais variadas formas e aparências. Se, por exemplo, a moda estabelece um padrão, a natureza humana a contraria. Afinal, uma minoria de mulheres é magra, alta e bonita.

A indicação de tudo isso é que o mundo não é cartesiano. Ele não se move pela lógica de Descartes. E isso acaba refletindo em toda atividade humana, começando pelas pessoas que vemos na rua em qualquer dia. Alguma dúvida? Dê uma passada em qualquer shopping na hora do almoço, poste-se em um ponto e fique observando. Você irá encontrar as mais diferentes aparências e a maioria delas será¡ fora de padrão, aqui entendido como uniformização.

Não é interessante que, em muitos campos e aspectos, tenhamos domado o mundo, fazendo com que fique do jeito que queremos, mas não mudamos nós próprios? Será uma resposta da natureza? Não sei. O que sei é que esta diversidade humana, esta falta de existência de um padrão de aparência, a diversidade no vestir, no se comportar, me chamou a atenção e me surpreendeu. Não é que nunca a tinha visto, mas a comparação com as fotos antigas as destacou, mostrando que, apesar de todos os padres criados pelo homem, somos diversos, diferentes.

E talvez seja exatamente a diferença que nos faz humanos.

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